3. BRASIL 6.3.13

1. AINDA  POUCO
2. DIFAMAR  O NEGCIO
3. 2005 EXISTIU, SIM!
4. OBA, O VANDERLEI CHEGOU

1. AINDA  POUCO
Os novos presidentes da Cmara e do Senado prometeram enfrentar os principais problemas do Congresso. O comeo, porem, no foi muito alvissareiro.
DANIEL PEREIRA E ADRIANO CEOLIN 

     O Senado e a Cmara tm oramentos bilionrios, que crescem ano aps ano e que, somente em 2013, consumiro 8,5 bilhes de reais dos cofres pblicos. Essa dinheirama, coletada do bolso dos contribuintes, financia h dcadas toda sorte de mordomias para parlamentares e funcionrios, o que concorre para a desmoralizao crescente do Poder Legislativo. No incio deste ano, no entanto, um sopro de novidade varreu o Congresso. Com novos comandantes eleitos, as duas Casas anunciaram medidas de corte de despesas. No Senado, a promessa  de um choque de gesto, ainda pendente de aprovao no plenrio, que resultaria numa economia de 262 milhes de reais em dois anos. J a Cmara aprovou, na semana passada, o projeto que limita o pagamento de 14 e 15 salrios aos congressistas, reduzindo o fardo de uma mamata existente h 67 anos. Essas decises contrariam a tradio recente de deputados e senadores, sempre dispostos a aumentar os prprios privilgios e consolidar o esprito de corpo existente entre eles. A dvida  se apontam para um novo caminho ou apenas atendem aos propsitos polticos mais imediatos dos presidentes recm-empossados.
     O senador Renan Calheiros e o deputado Henrique Eduardo Alves, ambos caciques do PMDB, foram eleitos para dirigir seus pares, em fevereiro, apesar de responderem a denncias variadas, que podem ser resumidas no fato de terem a imagem associada ao fisiologismo mais exacerbado. Diminuir gastos, portanto, lustra a imagem de ambos e sinaliza para a opinio pblica o comeo de uma caminhada moralizadora. Diante do tamanho do problema, esse comeo, porm, parece tmido demais. Henrique Alves, por exemplo, s planeja mais duas aes nessa seara. Ele promete passar um pente-fino nos contratos firmados entre a Cmara e as empresas terceirizadas, que servem para empregar aliados de polticos e parentes de servidores. Alm disso, afirma que moralizar o desembolso de horas extras aos funcionrios, outra rea em que a gastana corre solta. Mas nada alm disso. Henrique Alves no tem planos de acabar com nenhum privilgio dos nobres deputados, at porque os privilgios, segundo ele, nem sequer existiriam. "Discordo completamente da tese de que h mordomias." O deputado enfatizou ainda que no tem a inteno de aumentar o rigor para com os colegas que s aparecem para trabalhar s quartas-feiras, ou mesmo para com aqueles que assinam o ponto e, logo depois, embarcam para seu estado.
     "Os parlamentares brasileiros esto entre os que mais trabalham no mundo. Vou melhorar o marketing da Casa para mostrar como dignificamos o Parlamento", afirma Alves. Nem mesmo o faz de conta na anlise das notas fiscais utilizadas para justificar o uso da verba indenizatria ser enfrentado. Podem dormir tranquilas as excelncias que gastam dinheiro pblico  sob o pretexto de custear a atividade parlamentar  em empresas de familiares e aliados ou que compram gasolina em quantidade suficiente para dar vrias voltas ao redor do planeta. Pelo menos no discurso, a vida no Senado ser um pouco menos doce. Alvo de forte presso popular, materializada numa petio assinada por 1,6 milho de pessoas que pedem sua renncia da presidncia do Senado, Renan Calheiros mantm a promessa de seguir adiante com medidas moralizadoras. "Cortes de mordomias so um processo irreversvel. Precisamos aproximar o Parlamento da sociedade." O senador diz que demitir funcionrios terceirizados que do apoio administrativo nos gabinetes e reduzir o nmero de secretarias e diretorias da Casa. A esmagadora maioria das medidas, no entanto, atinge os servidores.
     Os senadores e suas mordomias sero poupados. A previso, por enquanto,  que eles tenham apenas suas despesas mdicas expostas  luz do sol. Despesas, registre-se, que continuaro sem limites. Ou seja: debaixo da cortina de marketing, o prometido corte de gastos no passar de perfumaria no campo das mordomias. A extino do servio mdico da Casa, propalada como mais uma medida moralizadora de Calheiros,  outra iniciativa de pouqussimo impacto. O ambulatrio  a menor das despesas. O grosso dos gastos  com o reembolso das despesas mdicas, que somam 100 milhes de reais por ano (veja o quadro). Nisso, Calheiros no mexeu. Na semana passada, ele apresentou um pedido de reembolso de 33.000 reais gastos com um dentista para a restaurao completa de sua arcada dentria, clareamento dos dentes includo. 

A MORDOMIA RESISTE
Alm do salrio de 26.700 reais, os 513 deputados e 81 senadores gozam de privilgios inimaginveis para a maioria dos brasileiros.
Plano de sade - No h limite de gastos para o parlamentar, o cnjuge e os filhos at 21 anos. A assistncia  vitalcia, mesmo depois de encerrado o mandato. O deputado paga 250 reais por ms pelo benefcio. O senador no paga nada.
15 salrios - At a semana passada, os parlamentares recebiam o 14 e o 15 salrios todos os anos. A mordomia sofreu um corte. A partir de agora, eles s recebero os extras no primeiro e no ltimo ano de mandato.
Verba indenizatria - Pode chegar a 34.000 reais mensais dependendo do estado de origem do parlamentar. O dinheiro pode ser gasto com passagens areas, compra de combustvel, aluguel de imveis nos estados, envio de correspondncia e contratao de consultorias.
Auxlio-moradia - Eleito, o parlamentar pode requisitar um apartamento funcional ou receber at 3800 reais mensais como auxlio-moradia para o aluguel de imveis. Vale para todos, inclusive os que moram em Braslia ou tm residncia prpria.


2. DIFAMAR  O NEGCIO 
Petista que criou rede para denegrir adversrios agora vende a tecnologia a prefeituras do partido.
HUGO MARQUES

     So muitas as histrias de annimos que alcanaram a fama por meio da internet. O petista Andr Guimares tem planos ambiciosos nessa direo. Criador da RedePT13, uma organizao virtual formada por perfis falsos e blogs apcrifos usados para atacar aqueles que so considerados inimigos do partido, ele j  uma celebridade entre seus pares. Se  preciso espalhar uma mentira para difamar algum, Guimares  acionado. Se for apenas para ridicularizar um oponente, o rapaz conhece todos os caminhos sujos. Na visita da blogueira Yoani Snchez, ele trabalhou como nunca. A rede postou montagens fotogrficas, incentivou os protestos e difundiu um falso dossi produzido contra ela pela embaixada cubana. O problema  que o "ciberguerrilheiro" petista sustenta sua atividade criminosa com dinheiro pblico, dinheiro do contribuinte. Andr Guimares  funcionrio do Congresso. Est lotado e recebe salrio no gabinete do deputado Andr Vargas, o atual vice-presidente da Cmara e secretrio nacional de comunicao do PT. Mas, como dito, o rapaz  ambicioso.
     Ele est montando uma espcie de franquia. Quer expandir sua rede de difamao por todo o pas. Os alvos,  claro, so os adversrios do PT. Os financiadores, como sempre, os cofres pblicos. Com as credenciais de homem da cpula nacional petista, Guimares est percorrendo municpios do pas para oferecer a prefeitos e vereadores seus servios. Identificando-se como "consultor de mdias sociais", ele oferta aos mandatrios petistas um pacote, como ele diz, j testado e aprovado: a tecnologia de utilizao das ferramentas da internet para desqualificar adversrios polticos e espalhar na rede as verses de interesse do cliente. Mas, como nem petista trabalha de graa, o pacote, dependendo da amplitude, custa entre 2000 e 30.000 reais. Um dos primeiros interessados na franquia de Guimares foi o prefeito de Jaciara (MT), Ademir Gaspar, que confirmou as negociaes. O rapaz tambm j esteve em So Bernardo do Campo (SP), Ubatuba (SP) e Vitria da Conquista (BA)  quatro das 635 cidades administradas pelo partido. Um amplo e milionrio mercado que pode render bons e lucrativos negcios.
     Procurado, o consultor se atrapalhou todo na hora de se explicar. Primeiro, tentou negar que seu trabalho para "melhorar as mdias desse pessoal que tem mandato" seja remunerado. Depois, admitiu que at poderia levar algum dinheiro, mas era coisa pequena, quase um agrado voluntrio: "Existe, sim, a possibilidade de quem quiser me pagar eu aceitar". Mais adiante, reconheceu que cobra um valor das prefeituras interessadas: "Se eu for fazer uma consultoria dessas a, vai ser 2000 reais por ms". Indagado sobre as atividades do subordinado, o deputado Andr Vargas se disse surpreso: "Ele trabalha comigo, mas eu no sabia disso, no.  informao nova. Vou avaliar". Outro dia, o presidente do Congresso, Renan Calheiros, demitiu duas estagirias do Senado por causa de um comentrio, considerado indecoroso, que elas fizeram na internet sobre um rato que apareceu nas dependncias do Senado. Andr Guimares no corre esse risco. Em maio, ele ser um dos destaques do encontro nacional dos chamados "blogueiros progressistas", espcie de tropa de elite dos difamadores a servio do PT. O encontro vai acontecer em Fortaleza. A lista de atraes do evento rene desde Lula at o mensaleiro Jos Dirceu.


3. 2005 EXISTIU, SIM!
Os parlamentares da oposio lembram-se do ano que o PT quis apagar da histria. Mas a KGB petista agiu de novo.

     A cena foi bizarra, constrangedora e engraada ao mesmo tempo. Na semana passada, deputados resolveram preencher um vcuo temporal que havia na exposio comemorativa do aniversrio do PT. O ano de 2005 havia desaparecido.  compreensvel que o partido queira apagar da memria o ano em que foi descoberto o mensalo, o ano em que seus principais lderes foram desmascarados, o ano em que o discurso da tica se revelou uma enganao. Enfim, o ano que levar a cpula do partido  cadeia. Os parlamentares de oposio, por sua vez, encomendaram um painel com as notcias publicadas na poca e com fotos dos principais personagens do maior escndalo de corrupo da histria  e ressuscitaram 2005. Deu confuso. O deputado Amauri Teixeira, do PT da Bahia, no gostou da interveno e tentou destruir o painel. Houve protestos, gritos, bate-boca e quase pancadaria. "Isso  coisa de moleque", repetia, esbaforido. Chamado de mensaleiro, o petista reagiu de maneira curiosa. "Quem me chamou de mensaleiro?", disse, tentando identificar algum no meio do tumulto que se formou. E concluiu: "Eu sou homem direito. Vai provar que eu peguei (roubei) alguma coisa...". Vaias e mais vaias.
     Apesar dos protestos, 2005 sumiu outra vez. Enquanto deputados do governo e da oposio discutiam, militantes e funcionrios do PT sequestraram o painel. Onde ele foi parai; ningum soube informar ao certo. "Os mensaleiros roubaram at a placa do mensalo", ironizou o deputado Onyx Lorenzoni, do DEM do Rio Grande do Sul. A confuso continuou no plenrio da Cmara, onde o deputado Lorenzoni foi chamado pelo colega Devanir Ribeiro, do PT de So Paulo, de "canalha". O PT preparou a exposio comemorativa de seus 33 anos de existncia para mostrar ano a ano, por meio de painis fotogrficos, a trajetria do partido at chegar aos governos Lula e Dilma Rousseff. Para pr um ponto final na polmica, o partido decidiu encerrar a exposio no fim de semana.
     Na ltima quinta-feira, coube ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, trazer o assunto ao mundo real. O ministro lembrou que em breve, muito em breve, os mensaleiros estaro na cadeia. Em entrevista a correspondentes estrangeiros em Braslia, o relator do processo do mensalo reafirmou o que VEJA antecipara na semana passada: se depender dele, at o incio do segundo semestre, todos os condenados no processo, julgado pela corte no ano passado, devem estar na priso. O ministro aguarda apenas os votos revisados dos colegas para analisar os recursos, a etapa final. "Espero encerrar toda essa ao at julho deste ano", disse, em mais uma sobeja evidncia de que a realidade sempre se sobrepe  farsa  por mais que os petistas insistam no contrrio. 
ROBSON BONIN


4. OBA, O VANDERLEI CHEGOU
Vanderlei" era como o deputado Gabriel Chalita chamava o dinheiro que recebia de propina, segundo o ex-assessor que o denuncia ao Ministrio Pblico. A acusao tirou do parlamentar um cargo certo no novo ministrio de Dilma e interrompeu alguns sonhos do PMDB para 2014.
LEONARDO COUTINHO

     At duas semanas atrs, o deputado federal Gabriel Chalita era uma estrela ascendente na poltica. Em 2010, ganhou prestgio ao defender a ento candidata do PT  Presidncia da Repblica, Dilma Rousseff, quando ela foi atacada por grupos religiosos por, supostamente, defender o aborto e o casamento entre homossexuais. Dois anos depois, candidatou-se a prefeito de So Paulo pelo PMDB e, com sua imagem de bom moo, discursou em defesa da tica e da amizade com padres-celebridade, como Marcelo Rossi e Fbio de Melo, conseguindo 13% dos votos. Saiu com o passe valorizado a ponto de, agora, ser nome certo na reforma ministerial que a presidente Dilma far neste ms  alm de pea no tabuleiro das eleies de 2014, quando poderia ser candidato ao Senado ou a vice-governador. O depoimento demolidor feito ao Ministrio Pblico por um ex-assessor e ex-amigo do peito fez tudo ruir.
     Roberto Grobman, o ex-assessor, contou aos promotores que se aproximou de Chalita em 2004, quando ele era secretrio da Educao de So Paulo. Fez isso por determinao do empresrio Chaim Zaher, que era dono do Sistema COC de Ensino e teria interesse em conseguir contratos com o governo. Grobman diz que Zaher lhe pagava um salrio para que ele atuasse na secretaria. "O Zaher queria ter uma pessoa dele l dentro para que pudesse vender os seus produtos. Queria ser favorecido, obviamente." Ficou, assim, estabelecida a bizarra situao em que Grobman, empregado pago por uma empresa privada, dava expediente numa secretaria de governo, com direito a carto de visita timbrado e o ttulo de "assessor de gabinete". Nessa condio, ele se tornou ntimo do ento secretrio, com quem viajou para diversos pases ("O Chalita disse que gostou de mim e eu virei seu acompanhante de viagens"). Mas nem essa proximidade com o titular da pasta nem as supostas vantagens que o COC teria ofertado a Chalila  entre elas o pagamento de parte da reforma de um dos seus apartamentos, fato que Zaher nega  resultaram em algum negcio para o grupo. Diz Grobman: "O Chalita deixava o Zaher sempre no fim da fila. Dizia que tinha acordos mais importantes". 
     Grobman permaneceu como assessor informal de Chalita por dois anos. Nesse perodo, disse ao Ministrio Pblico, assistiu a reunies em que ele combinava como seriam feitas as cobranas de propina a fornecedores da secretaria, como a Zinwell, uma empresa de origem chinesa contratada para fornecer por 5 milhes de reais 5000 antenas parablicas para escolas. A "taxa", de 25%, era entregue diretamente a Chalita em seu apartamento em Higienpolis. Segundo Grobman, o ex-secretrio chamava o dinheiro de "Vanderlei". "Quando tocava o interfone, ele gritava, eufrico: 'Oba, chegou o Vanderlei!'. S mais tarde descobri que Vanderlei no era uma pessoa. Como ele dizia que mandava a sua parte para uma conta bancria em Luxemburgo, fazia graa com o nome do tcnico de futebol", diz. Grobman contou ao MP que, por diversas vezes, viu Chalita distribuir o dinheiro que recebia. "Ele derramava as notas no cho do closet. Arrancava as tiras dos maos e jogava em cima dos assessores, imitando o Silvio Santos: 'Quem quer dinheiro?!!'."
     O ex-assessor afirmou ainda que empresas fornecedoras da Secretaria da Educao eram compelidas a comprar lotes de livros do deputado  uma manobra que o ajudaria a justificar o seu exuberante aumento patrimonial (os 741.000 reais em bens que ele declarava possuir em 2000 transformaram-se em 11,5 milhes em 2011). Aos promotores, Grobman ps em dvida no apenas os motivos pelos quais os livros eram vendidos, mas tambm quem os escrevia. Um dos inquritos abertos apurar se houve uso de dinheiro pblico no pagamento de uma equipe de ghost writers que, segundo Grobman, ajudava o ex-secretrio a escrever seus livros  ele j lanou 64 at agora. Procurado por VEJA, Chalita disse, por meio de nota, ser vtima de uma disputa poltica e negou que Grobman tenha sido seu assessor  embora tivesse e-mail funcional, carto de visita e tenha aparecido nos prospectos da Unesco como representante da secretaria em evento realizado em 2004, na Frana (onde ele e Chalita posaram para a foto que ilustra esta reportagem).
     Na segunda-feira, o governo federal anunciou ter desistido de nomear o peemedebista para um ministrio. A aventada vaga no Senado em 2014 soa agora uma impossibilidade, sem falar nos planos para a candidatura a vice-governador. Na quinta, Chalita se reuniu com um grupo de assessores e admitiu: "Eu estou acabado". O resultado das investigaes do Ministrio Pblico dir se o pas deve ou no lamentar essa constatao.


